POESÓ

TUDO PODE VIRAR PÓ
OU
POEMA





















segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Cãozinho Carinho

Eu nem preciso chamar pelo seu nome
Ele me percebe antes de eu abrir o portão
Ele é mais do que um cão
Ele é um cãozinho tão amoroso
e sente mais fome de carinho do que ração
mais carícias do que comida
Duvida?
então veja os seus olhinhos brilhando
quando alguém lhe dá atenção
um coração canino é tão fiel
e generoso



Ele adora brincar pular
puxar o cadarço do meu All Star
Ele até dorme comigo
troca várias vezes de lugar em meu colchão:
às vezes fica aos meus pés
de tantos caminhos
outras vezes colado ao meu rosto
com o seu pêlo macio
e lambe as minhas mãos com gratidão
e fecha docemente os seus olhinhos
Ele é só carinho
é só um cãozinho
como pode caber um grande coração?
Ele é só carinho
apesar de que já nem preciso
eu o acolho e recolho a sua meiguice 
eu que já tenho um carinho maior
que mesmo distante
se faz tão próximo em meu viver
Ele puxa o cobertor
desarruma o lençol
ele é só amor
e ainda late saudade
quando percebe que ainda há alguem
ou um sonho entre nós dois
late...late...sem alarde
como se fôsse o som do seu coração!

Carlos Gutierrez

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Confesso que gibi

Confesso que GIBI
gibi muito
atravessei em claro noites e noites...
confesso que eu gibi
e ainda os procuro em todos os cantos...
ordenados e revirados
bagunçados como o quarto do Zozó
Procuro-os
em bancas de jornais
sebos de verdade
sebos virtuais
e mais onde eu puder procurar...
Quantos deles passaram em minhas mãos?
Quantos deles meus olhos namoraram/
Quantos heróis
vilões
e heroínas fatais
os meus olhos desejaram
Confesso que eu gibi
um jeito que escolhi
para suprir a minha fragilidade...
me espelhar em tiras
em preto e branco
delineadas no fico bico de pena
carregado de negro nanquim
ou ricamente coloridas
como arcos-íris sem fim
Amava e ainda amo
os traços suaves e vigorosos
os contornos delicados de Jane
Patty Pippermint e Diana Palmer
as expressões marcantes
dos heróis e vilões mascarados
os anéis de caveira
as armas de prata
o tropel de cavalos selvagens
Confesso que eu gibi
bebi muito dessas fontes gráficas
dos balões de estórias sem graça
e outras tão profundas e enigmáticas
Confesso que ueu gibi
Já fui o Príncipe Valente
um herói medieval
com toda armadura e metal
Já fui Mandraque
colei um estúpido bigode
e um ridículo cavanhaque
comprei um manual de magia
de araque
na adolescência a gente pensa que consegue o amor
apenas colocando as nossas mãos as cegas
dentro de uma cartola ou fraque que talvez
um escorpião se escondeu...
Confesso que eu gibi
nasci...morri...sobrevivi...
tantas vezes...
com o corpo fechado de um Fantasma
e o coração aberto de Charlie Brown
Confesso que eu me permiti
gastar tanto tempo em gibis...
encher as estantes
de personagens errantes...
trocar alguns doces
para colecionar todos os seus caminhos...


Carlos Gutierrez

Posssibilidades

EU POSSO FICAR CEGO
IGUAL UM CARA APAIXONADO
EU POSSO FICAR ESPERTO
MAIS DO QUE UM OPORTUNISTA MISSIONÁRIO
EU POSSO FICAR BOBO
MAIS DO QUE O BOZO
E ACREDITAR EM DIAS MELHORES
EU POSSO SER CRIANÇA
SEGUIR FORMIGAS E INVENTAR BRINQUEDOS
EU POSSO SER ADOLESCENTE
ALIMENTAR IDEAIS E VOMITAR PESSOAS DITAS NORMAIS
EU POSSO SER ADULTO
VESTIR A CAPA DA RESPONSABILIDADE DA IDADE
E SER O VULTO SEM VONTADE
DE OLHAR A METADE FINAL
EU POSSO SER TANTAS COISAS
TROCAR TANTAS ROUPAS E MÁSCARAS
MAS ÀS VEZES ME SINTO COMPLETAMENTE DESPIDO
ESPRIMIDO NA MASSA QUE PASSA SEM SENTIDO
EU POSSO SER DOCE
IGUAL A VOZ DE PATRICIA MARX
EU POSSO SER AMARGO
TAL QUAL UM UM COPO DE CAMPARI
EU POSSO SER ALEGRE
MAIS QUE O PALHAÇO ARRELIA
EU POSSO SER TRISTE
MAIS DO QUE OS OLHOS DE UM CÃO ABANDONADO
EU POSSO SER TANTAS COISAS
MAS TEM HORAS QUE EU ACHO
QUE EU NÃO SOU NADA
TEM HORAS QUE DÁ UM BRANCO
MAIS DO QUE O TALCO JOHNSON
E EU NESTE NEVOEIRO PERFUMADO
NÃO VEJO NADA...

Carlos Gutierrez

Belchior Paralelas - Acustico

Copo de Vidro

Num copo de vidro


lançei um olhar


Olhar tão profundo


eu lançei sem imaginar


que em poucos instantes


o líquido tão excitante


fôsse me dominar


me embriagar.








Na mesa afastada


bebi o amargo do passado


a angústia do presente


e o temor do futuro.








No bar tão escuro


saudades e lágrimas


se misturam


no coquetel da desilusão.








E sem consciência,


sem direção


bebi sem parar


na sêde de encontrar


um motivo,um sonho,


um alguém para amar.








O bar vai fechar


sou o último a sair


na mesa um sonho, um pedaço, um resto de mim


e um copo de vidro vazio e tristonho


que assiste com frieza o meu quase fim.








Caí em mim mesmo


na sarjeta da vida,


no delírio de uma paixão tolhida.


No porre mais uma fuga,


mais uma adiada despedida.


Carlos Gutierrez