POESÓ

TUDO PODE VIRAR PÓ
OU
POEMA





















terça-feira, 9 de julho de 2013

Franz Kafka

Em 3 de julho celebra-se o 130º aniversário do autor de língua alemã natural de Praga, um profeta da sociedade contemporânea de massa em seus aspectos mais angustiantes e arbitrários.



Gregor Samsa está deitado na cama, totalmente indefeso. Suas costas são duras como uma couraça. Erguendo a cabeça, ele vê um ventre marrom e suas perninhas finas e descontroladas, agitando-se diante de seus olhos. É este o corpo de um ser humano? Não, é um gigantesco inseto daninho, uma espécie de besouro repulsivo, que na noite anterior ainda era um homem.
O conto A metamorfose, de 1912, é o texto narrativo mais famoso de Franz Kafka. Uma história macabra, angustiante, sobre a vulnerabilidade do ser humano e sua precária condição no mundo, que da noite para o dia pode transformá-lo em pária.
Mas por que o autor "empacotou" sua metáfora numa forma tão enigmática? Ele não podia tê-la apresentado de um modo mais "realista", "verossímil"? Isso é o que pergunta em carta a Kafka um certo Dr. Siegfried Wolff, que lera o conto logo após seu lançamento.
"Prezado Senhor: o senhor me fez muito infeliz. Comprei a sua Metamorfose e a presenteei à minha prima. Mas ela não sabe como explicar a história. Minha prima a deu à mãe dela, que também não encontra explicação. Só o senhor pode me ajudar. O senhor tem que me ajudar, pois foi quem me meteu nisso. Portanto, me diga o que a minha prima deve pensar da Metamorfose."
Manuscrito original de "O processo" está preservado em Marbach
O ser humano como engrenagem
Por que Kafka escrevia de forma assim tão soturna, submetendo suas personagens a situações que não ocorrem na realidade, pelo menos no sentido literal? Pois essa foi uma opção que também lhe dificultou a trajetória, impedindo que, ainda em vida, ele se tornasse um escritor aclamado pelo público.
O germanista Thomas Anz, docente da Universidade de Marburg e autor de um estudo sobre a vida e obra de Franz Kafka (1883-1924), o considera um fantástico poeta do absurdo. Sua literatura introvertida, cifrada, é, possivelmente, o equivalente formal a todas as repartições jurídicas e homens honoráveis com que suas personagens se confrontam.
Isso, prossegue Anz, aplica-se em especial às instâncias estatais, como as descritas no romance O processo, ou, em versão ainda mais implacável, no conto A colônia penal – ambos textos que refletem a impotência do indivíduo diante de poderes anônimos.
Um tribunal civil no primeiro caso, uma corte militar, no segundo, levantam imputações totalmente arbitrárias, cuja verdadeira motivação o acusado não consegue sequer vislumbrar. Por que os réus se tornaram culpados? Eles não sabem. Tal situação de indefensibilidade, uma vivência central nas sociedades de massa modernas, é o que se denomina "kafkiana".
Essa vivência, Charles Chaplin traduziu numa imagem eloquente em seu filme Tempos modernos, quando, inteiramente indefeso, o protagonista, um operário de fábrica, se vê entalado entre as gigantescas engrenagens de uma máquina em funcionamento. Um símbolo visual com que Kafka certamente teria se identificado.
Orson Welles levou "O processo" às telas (de pé, Anthony Perkins)
Profeta dos terrores da vida moderna
Os textos kafkianos expressam o nervosismo de sua época diante do fenômeno da modernização, então em curso, define Michael Braun, diretor do departamento de literatura da Fundação Konrad Adenauer.
O crescimento das cidades, novos meios de transporte como o trem e, acima de tudo, o automóvel, novas técnicas de produção e um Estado que se alastrava, dominante – tudo isso era novo e preocupante. E essa intranquilidade perdura até nossos dias.
"Por isso costuma-se evocar Kafka como profeta, como alguém que, por volta de 1900, já antecipava aquilo que se tornaria realidade em meados do século passado e mais além, ou seja: o ser humano inteiramente controlado e também torturado", explica Braun. Assim, por exemplo, é válido traçar uma ligação direta entre a colônia penal de Kafka e o campo de prisioneiros de Guantánamo, hoje.
Casa da família Kafka em Praga
Patchwork de identidades
A sensação de impotência descrita pelo autor judeu de língua alemã, natural de Praga, persiste até hoje, pelo menos em parte. Paradoxalmente, as sociedades cujos cidadãos gozam de grandes liberdades também trazem em si um certo temor. Uma causa possível para isso é a perda das instâncias tradicionais de autoridade: esse fenômeno, que ocupou Kafka sem cessar, inquieta as pessoas até hoje, afirma Anz.
"As autoridades são percebidas como algo ameaçador, mas em parte são também alvo de zombaria. Tudo isso produz uma certa desorientação. Essas são vivências da era moderna que subsistem até hoje, e que um autor como Kafka representou de forma brilhante e exemplar."
Quanto à ambivalência que permeia os textos de Franz Kafka, esta também se origina na identidade multifacetada do autor – a qual, por sua vez, é mais um fenômeno típico da modernidade, ressalta Braun.
"Kafka era judeu, era advogado, era escritor, nasceu em Praga, era tcheco e alemão. E, em meio a essa convivência e confusão de identidades distintas, buscar um Kafka que fale palavras claras será sempre um problema." Entretanto, ressalva o germanista da Fundação Adenauer, "é justamente esse problema que constitui a atratividade dos textos de Kafka. Pois, se esse problema não existisse, qual seria a graça de se ler Kafka?".


Laura Diaz

A #TripGirl ativista Laura Diaz se entrega de corpo e alma às lentes da Trip http://ow.ly/mHyL9

“O absurdo não é eu estar despida no centro de São Paulo, o absurdo é a violência, é o que viraram as relações amorosas, meramente contratuais e econômicas, é a gente ser estuprado no trabalho todos os dias e achar que está OK aquele salário que não está nada de acordo com o tanto que se trabalha.”
 
 
 

ALONE

Depósito de Tirinhas.

QUEM ABRE MÃO
DA SUA CONDIÇÃO
PERANTE A SOCIEDADE
QUEM ABRE MÃO
DO SEU STATUS SEUS EXTRATUS
SUA COMODIDADE E ALIENAÇÃO
QUEM ABRE MÃO
E ACENA SEM SENTIR PIEDADE
UM GESTO FRATERNO
NO VERÃO E NO INVERNO
OU QUALQUER OUTRA ESTAÇÃO
QUEM ABRE MÃO
DAS LENHAS DAS SENHAS
QUE ALIMENTAM AS SUAS FOGUEIRAS DE VAIDADES
ONDE MÁSCARAS CREPITAM E FEREM A PELE
QUEM ABRE MÃO
DOS SUBTERFÚGIOS E REVELA
AS SUAS FERIDAS PRECONCEITOS E ALERGIAS
QUEM ABRE MÃO
PARA ESPALHAR SEMENTES
E NÃO APENAS SUGAR
O FÁCIL FÚTIL FRUTO
DO PRESENTE
JAMAIS INOCENTE
 
 
Carlos Gutierrez
 
 

ACOSSADOS

ACOSSADOS

Brincávamos de gato e rato
entre fugas e adiados encontros
Estávamos mais do que prontos
maduros e maleáveis
e mesmo assim despreparados
insaciáveis e insociáveis
Cometíamos pequenos delitos
administrávamos conflitos
consistências e bobagens

Brincávamos de gato e rato
olhávamos os arredores
os cenários delineados
mas não ocupados de fato
Sabíamos que um gato tem sete vidas
e um rato mil fugas
previsíveis e insólitas escapulidas
e que ambas têm paixões prematuras
nos subterrâneos e nas alturas
e se expõe nas ruas
em fogem em telhados e tubos
buracos cavidades
as suas vidas se permeiam
em descontinuidades e fragmentações
e assim o imitávamos
brincando de gato e camundongo
prá não dizer rato rasteiro repugnante
prá rimar com bongos do Congo
ou tambores longos que interpretam banzos



Brincávamos de felino e roedor
enquanto um mostra as garras
as unhas de ataque e furor
o outro procura um canto qualquer
no rodapé
para proteger o inocente amor
que julga ter

E ambos acossados
pela posse e pelo desapego
em pelos eriçados
ou suavemente penteados pelo medo
mantinham todos os seus segredos
menos um
o desejo de encontro
em algum lugar
que possa ser incomum
um lugar que não possa incomodar
e acomodar agora e depois
o desejo de nós dois

Brincávamos de gato e rato
alternávamos as personagens
às vezes eu era o gato selvagem
dando pulos por aí
mimoso miando
quebrando telhados
enfeitiçando estrelas
às vezes eu era o o rato repelido
dando sustos por aí

Gritos inesperados
e a perseguição que parece
jamais terminar
Estamos predestinados
e mesmo acossados
sabemos que não podemos mudar
as nossas naturezas
e os nossos instintos

O gato comum
ou de raça
persa ou angorá
sempre feio será
a qualquer pássaro
e o rato apenas bonito
em um desenho animado
e a vida Tom e Jerry prossegue
em tom cinza e clima gélido da cidade

Um gato de cartola
que cometeu um recente delito
convida para assistir um filme de Godard
uma ratazana Bailarina
que mora no sebo ao lado...

e nem parecem ser
acossados


Carlos Gutierrez

"Lendo Pessoa à beira-mar", com Bethânia e Dona Cleo.

VAGALUMES

Já tínhamos mostrado aqui no Hypeness um ensaio fotográfico com vagalumes como você nunca viu (aqui) e desta vez foi o artista japonês Yume Cyan a nos impressionar. Em uma floresta perto da cidade de Nagoya, em seu país natal, Cyan captou fotografias de longa exposição absolutamente mágicas, mostrando as trilhas percorridas pelos vagalumes.
Ao manter o obturador da câmera em uma abertura baixa, Cyan clica cada ponto de luz brilhante, apresentando quadros em que é possível ver o caminho do voo dos vagalumes. Vale a pena ver as fotos:


YumeCyan1

OLHO DE DENTRO

OLHO DE DENTRO EU FUJO OLHO DE FORA EU ENTRO
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OLHO DE FORA VENTO
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CADÊ OS MEUS ÓCULOS?
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ATRAVÉS DE SUAS LENTES
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QUANDO SE SENTE DENTRO


Carlos Gutierrez