POESÓ

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POEMA





















sexta-feira, 24 de maio de 2019

Chet Baker Trio ‎– Someday My Prince Will Come (1983) [1987 edition]

Audrey Hepburn - Moon River (Best Version )

Bob Dylan Locarno Switzerland April 22nd 2019

Dois Cortados e a Conta

Para ler ao som de “One more cup of coffee“, de Bob Dylan
Por Paula Taitelbaum*
A garota moída de véspera aguarda mais um grão de amor expresso. O professor amargo tenta manter-se acordado sobre o jornal pingado na penumbra de um canto. A garçonete passada queima seu dedo na lágrima fervente da máquina estilo locomotiva à vapor. A senhora fraca deixa um pouco do seu batom na xícara branca de louça barata.
A secretária doce percebe o resto de ai que cai de uma boca espumante. O executivo frio sente o líquido escuro escorrendo por suas veias abertas. A vendedora vazia oferece seu corpo de bandeja enquanto derrama um tanto de suas lamentações. O ator aguado sente a fumaça entrar por suas narinas até experimentar a última gota de fala decorada.
O aposentado leitoso faz tremer o pires gasto que um dia foi do gato. A estudante descafeinada levanta a mão num pedido mirrado e distante. O homem aromatizado finge não prestar atenção na mulher que lambe o dedo lambuzado de chantilly. O poeta denso ignora dois dedos de prosa e rabisca versos imaginários num guardanapo estampado de rodelas marrons.
A moça extra-forte adoça o olhar mexendo suas ideias em movimentos circulares. O desempregado duplo deixa escorrer o resto da auto-estima goela abaixo. A amiga pela metade pensa que as relações não passam de uma meia-taça. A viúva pura assopra suas lembranças para sorvê-las em um grande gole.
O garçom torrado abraça a vassoura por trás do balcão descascado. A filha embebida em restrições pede à mãe uma porção de sonhos frescos. A adolescente encorpada aperta as coxas quentes querendo servir um sanduíche de si mesma. O músico solúvel em críticas esconde as olheiras por trás dos óculos de lentes mal dormidas.
O casal morno alimenta-se de silêncio mastigando um pão adormecido. A esposa granulada acaricia a baguette num requentado pedido de perdão. A velha triturada estende a mão suplicando uma migalha de atenção. A virgem amanteigada deixa sua calda escorrer sem que ninguém perceba onde ela vai parar.
O desquitado italiano hesita antes de pedir um bem-casado. O turista orgânico sorve um sabor estranho enquanto tenta entender a língua que o cerca. A amante cremosa procura o bilhete da sorte entre os restos da mesa ao lado. O garoto cigano de cabelos encaracolados e brinco de ouro lê a sorte na borra decantada antes de partir para o vale lá embaixo.
É uma manhã como outra qualquer no Dylan’s Café.
* Paula Taitelbaum é escritora, autora de Ménage à Trois; Porno Pop Pocket; Palavra vai, palavra vem e coordenadora do Núcleo de Comunicação L&PM.

Para comemorar seu aniversário, (re)publicamos aqui um texto em sua homenagem que também tem tudo a ver com o dia de hoje, já que 24 de maio é o Dia Nacional do Café.


http://dylanesco.com/categoria/devaneios/

Blue Velvet


eu adoro o que ela ilustra:
todo o céu
que se acomoda em seu vestido 
e ainda se reparte em luvas
como doces cachos de uvas
ou o raro agáve sangue de tequila
que compartilha a sua pele cereja
pelos decotes em singelos recortes
que absolvem desejos...
eu adoro tudo o que ela ilustra
e não frustra nenhum sonho de todos os sentidos....
há essa magia...
esse sol que rodopia em volta do microfone...
posso ouví-la mesmo no mais completo silêncio...
em seu colar vejo as teclas de um piano intenso...
em seus cabelos uma parte da silhueta de um baixo acústico
e em sua face inclinada ao sabor da música
faz girar o salão dos sentidos...
toda a coreografia que possa ser cabal e cabível
em um cenário azul e pretensamente infinito
Carlos Roberto Gutierrez
ilustração de Lima Junior
A imagem pode conter: sapatos

Sensações

tanto tempo...
escondido
escondendo
na escolta
de medos e segredos
no conter
cointainer
coração preso
na ilusão de escapar ileso
de suportar todo o peso
que o vazio produz
tanto tempo...
protelando
tolamente pensando
estar se protegendo
no flagelo das horas
esconderijo
no vulnerável beco
e os dedos dos pés feridos
espremidos dentro das botas
tanto tempo...
prá que ue aprendesse
e valorizasse o prazer da aventura
não suporto usar meias
nem de tecidos e verdades
quero refrescar os meus pensamentos
e os meus dedos
em líquidos afagos
de um riacho ou de um lago
Carlos Roberto Gutierrez

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Vem Meu Bem

Vem!
Chega mais!
em minha tempestade
Vem!
de alguma nuvem
que ainda não chora
com aquele guarda chuva
esquecido fora de hora
o dia já está tão escuro
o tempo está assustador
os raios riscam o céu
como espadas flutuantes
lâminas conflitantes
enquanto a chuva intermitente
enchagua as ruas
formam poças espelhos
entopem os bueiros
e deixa vulneráveis todos os pisos
naturais e impermeáveis
Vem! venha como um raio fatal
nesse todo temporal
enxugar o meu corpo
os meus olhos encharcados
Vem me proteger
com o seu guarda chuva invocado
a sua capa de nylon
e galochas sobressalentes
e a sua lanterna interior
Vem! me seduz
seja a minha luz
que reduz a tempestade
Carlos Roberto Gutierrez

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